4.4.2006
Endereço novo!
Melina
2:52:10 PM
2.2.2006
Endereço novo!
Melina
2:43:41 PM
1.23.2006
anna-querida
para minha amiga annaflávia
Ela chegou na sala grande com uma vontade tamanha de saber quem era aquele velho sorridente,
sentado na cadeira verde e com os dois braços exaustos sobre a mesa de vidro cheia de marcas
de dedos.
Já era tarde, e ela mais uma vez não entendia porque aceitara mais um convite de última hora para
compromisso da amiga inseparável sem ao menos questionar. A companhia já valia o programa que
fosse.
E lá estava ela naquele lugar grande e branco, com tantos barulhos das mais variadas qualidades
de vozes e tantas taças de vinho barato que teimavam em dançar à sua frente.
De longe, o velho da mesa insistia em sorrir em sua direção com os óculos debruçados sobre um
nariz enorme.
E ela, que não sabia o que fazer com as mãos, além do movimento de sempre, que constava em
guardar uma mexa de cabelos atrás de cada uma das orelhas; fazia esse movimento duplo, ao
mesmo tempo e repetidamente.
A música ambiente foi identificada e recebeu acompanhamento pelos seus lábios sem som.
Dublagem apenas. Tinha uma facilidade incrível de encontrar música entre outros barulhos.
Era Nina Simone.
Ele veio em sua direção. Disse um oi cheio de simpatia acompanhado pelo movimento da cabeça,
e junto com mais um sorriso cheio de cumplicidade perguntou se ela já tinha dado uma olhada no livro.
Ela disse que ainda não. Pediu que ela o acompanhasse até a mesa, ela foi atrás procurando na bolsa
bagunçada seus óculos. Ele perguntou se poderia presenteá-la com um, ela disse um "claro!" fingindo
estar confortável. Ele disse que ela parecia tanto com uma pessoa tão querida... Ela riu. Ele perguntou
seu nome. Ela respondeu com os olhos grudados no livro colorido. Ele abriu a primeira página e escreveu
na contracapa : "Para Ana-Querida, com um abraço e saudade do que não é.
Ferreira Gullar"
Melina
5:43:07 PM
12.29.2005
Desejo a todos, no Ano Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradáveis, exultantes, discretos e, principalmente, bem sucedidos.
Rubem Braga.
Melina
1:03:53 PM
12.27.2005
tudo novo de novo
Queria saber quem teve a genial idéia de repartir os anos em fatias. Com os anos separados
desta forma, a esperança das pessoas acaba sendo retomada. Assim, os que estão acima do
peso emagrecerão no ano que vem, os desleixados serão mais responsáveis, os tensos relaxados,
os preguiçosos mais dispostos e os solteiros enamorados.
Eu sempre me faço um monte de promessas inexeqüíveis e reconheço as delícias
que um ano novo nos proporciona.
Nada melhor que um começar de novo para que tenhamos uma vontade verdadeira
de consertar os defeitos, encrementar as qualidades e realizar sonhos com as nossas próprias mãos.

Melina
4:47:01 PM
12.26.2005
mariana
No caminho de volta para casa sonhei que chovia flores coloridas e
que o rosto dela aparecia por entre as nuvens sorrindo para mim.
Ela já era adulta, porém seus dentes continuavam branquinhos como
os de uma criança. Eu lembrava que era seu aniversário e sabia
que ela estaria comemorando onde quer que estivesse.

Melina
5:00:11 PM
12.16.2005
rauzblito é uma palavra russa que significa o
sentimento bacana que uma pessoa tem quando encontra
com alguém que amou.
Melina
4:12:03 PM
12.14.2005
José Luiz Ferreira - www.1000imagens.com
carla e jaime
Carlinha pega o pincel, Jaime saca a garrafa de vinho. A música está no volume
máximo e ela grita para que ele possa ouvir o eu te amo. O macacão manchado
com tinta óleo faz de Carlinha a mulher mais charmosa do mundo aos olhos de
Jaime, que está levemente descabelado, sem cueca e com um short velho com
manchas de gotas de água sanitária. Mesmo assim ele é o homem mais lindo do
planeta e ela ama o jeito idiota que ele tem de olhar nos olhos dela ou de perguntar
mil vezes as mesmas coisas. Jaime sempre esquece a data do aniversário de
casamento e Carla sempre manda flores para que ele não esqueça... mas ele sempre
esquece o porque das rosas cor de chá.
Ela é romântica e ele é o cara mais distraído que já cruzou o seu caminho.
Ele abre o vinho doce, dança desengonçadamente e Carla ri.
Ele fica olhando enquanto ela pinta, cantarolando errado e no mais alto dos volumes,
a música com o seu fio de voz.
Ele suspira de felicidade e fala só com os lábios 'eu te amo também e muito'.
Ela adora quando Jaime fala sem som.
Ela joga a cabeça para trás, gargalha em silêncio, pisca os dois olhos para ele e volta
com toda a concentração do mundo para os detalhes do seu quadro colorido.
Ele desce do sofá, afoito abraça Carla e beija a sua nuca exposta debaixo do
seu enorme rabo de cavalo.
E assim começa mais uma noite: Carla e Jaime fazem o maior amor do mundo!
Melina
9:48:38 AM
12.9.2005
Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.
Maiakovski
Melina
11:44:02 AM
12.7.2005
Paulo Leal
eu
baseado no ulisses de clarice
Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso pouco e mal as palavras.
Sou irritável e firo facilmente. Também sou nervosa e perdôo logo.
Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas que eu me lembre e
muitas que eu não esqueço. Não sou paciente, e sou profundamente
colérica. Tenho uma paz profunda, somente porque ela é profunda
e não pode ser sequer atingida por mim mesma. Se fosse alcançável
por mim, eu não teria um minuto de paz
Melina
10:46:32 AM
11.25.2005
festa de casamento
Naquela festa todos estávamos querendo única e exclusivamente divertimento...
Música alta, champanhe, dança esquisita, beijos de batom.
Ela de longe prestava atenção em cada movimento meu.
Eu daqui olhava em seus olhos mesmo com os muitos metros de distância e dezenas de
pessoas que haviam entre nós. Seu jeito de se balançar discretamente ao ritmo da música
mexia estranhamente com os meus mais íntimos pensamentos e sensações.
Por algum tempo chego a perdê-la de vista, me distraindo numa ou noutra conversa e a
encontro com os olhos novamente.
Sozinha, ela bebe vinho tinto e fuma um cigarro de cor e cheiro esquisitos. Passa a língua nos
lábios a cada gole.
Falo, gesticulo, gargalho, a perco de vista de novo e percebo que ela me faz conseguir,
com os olhos, o reencontro.
A champanhe capricha no efeito, minhas bochechas ficam cada vez mais quentes e meus
olhos sempre se batem com os dela em um canto qualquer daquela sala grande e escura.
As pernas já desobedecem discretamente. Danço entre outros tantos e ela continua a ronda...
Agora os seus sorrisos já são liberados com discrição, contidos um pouco entre os lábios vermelhos.
Quando ri, vira de leve o rosto para o outro lado e sempre bebe mais um gole antes de colocar
novamente seus olhos nos meus.
Parece jovem demais, louca demais e difícil de decifrar. Seus olhos têm uma maquiagem forte e negra.
Em uma de suas sobrancelhas há uma cicatriz de um enfeite que não deu certo. Muitos brincos nas
orelhas, cabelos lisos, pretos e desalinhados... mais uns goles e a música se torna irresistível para mim;
no meio da dança sinto uma mão inteira apertar os meus dedos.
Ela está com a boca muito perto da minha. Nossas línguas se encontram ávidas dentro de nossas
bocas. Seu perfume é doce e sua pele branca e macia. De perto vejo os seus olhos: preto e branco.
Ela respira dentro da minha orelha, lambe o meu pescoço. Aperto seu corpo contra o meu e ela não
larga a minha mão... Me puxa para dentro, lambe os meus dedos. Diz que quer casar comigo e eu aceito.
Melina
12:22:53 PM
11.23.2005
benção irlandesa
Que a estrada se erga no encontro do seu caminho
Que o vento esteja sempre às suas costas
Que o sol brilhe quente sobre sua face
Que a chuva caia suave sobre seus campos
E até que nos encontremos de novo que Deus te guarde na palma de Sua mão
Melina
2:02:56 PM
notícias de Amelie
A gatinha da emergência felina ali de baixo foi adotada ontem por uma
moça muito boazinha, que se apaixonou por ela imediatamente,
manteve o nome e a levou para viver em companhia de Benjamim,
um gatão que estava precisando mesmo de uma irmã...
Ufa!
Melina
10:17:47 AM
11.18.2005
das surpresas
Ela chegou em casa cansada. Muito cansada. Ligou o rádio e sem trocar de
roupa, começou a varrer a casa. Colocou as coisas em seus devidos lugares
(hidratante que ficou em cima da cama, todas as roupas que desistiu de usar
para trabalhar, cartas que haviam sido entregues por debaixo da porta), colocou
comida para o gato, passou pano nos móveis, saiu correndo para atender o telefone.
Ao ouvir a voz do outro lado, fez cara de quem se arrependeu de ter atendido.
Negou o convite. Disse que não podia porquê estava cansada, que estava sem
grana, que não gostava do lugar, nem dos amigos dela. Sem ter como usar de mais
argumentos, aumentou o volume do som e entrou no banho com olhos de desânimo.
Colocou a roupa mais sem graça que tinha no meio daquela bagunça que é o seu
armário. Esqueceu de passar creme no corpo. Passou o perfume de ficar em casa.
Pegou a bolsa. Beijou o gato. Apagou as luzes e saiu.
Voltou quando o dia quase amanhecia.
No elevador, se olhava no espelho com um sorriso de leve no canto da boca.
Tinha tido uma das melhores noite de sua vida!
Melina
10:22:33 AM
11.16.2005
- É, e eu fui logo dizendo I love you, que quer dizer mórena... em francês...
Chicó em O Auto da Compadecida de A. Suassuna
Melina
9:25:28 AM
11.9.2005
manual
Quando sinto frio, coloco as mãos no bolso. Quando fico sem jeito, também. Quando estou com sono,
fico chata. Com fome, perco o humor. Quando sinto saudade, ligo. Com tesão, fico molhada. Quando
acordo, fico pensativa. Com medo, tremo. Se fico tímida, coro. Quando fico sem tempo, fico irritada.
Quando estou irritada, sai de baixo!, Quando sinto ciúmes, dói. Quando lembro de um momento muito
bom, revivo. Quando abraço, é porque gosto muito. Sob pressão, funciono. Quando beijo, sinto gosto e
cheiro. Quando durmo junto, acordo no meio da noite para ficar olhando um pouco. Quando me apaixono,
me dou inteira. Se digo que é meu amigo, é porque sou amiga. Quando estou feliz, eu canto. Quando fico
triste, também, só que é diferente. Quando estou brigando, não consigo tomar cuidado com as palavras.
Quando sinto dor, fecho os olhos. Quando não gosto, reclamo. Quando estou cansada, fico com cara de
triste. Quando fico tensa, fico muda. Quando gosto, tá na cara. Quando começo, nem sempre termino.
Quando magôo, peço desculpas. Quando tomo susto, não sei. Quando escorrego, rio. Quando corro, canso.
Quando ando, relaxo. Se tem cheiro, sinto logo. Quando ligo, pergunto se pode falar. Enquanto acontece,
observo. Quando fico desconfortável, cruzo os braços. Quando eu digo que gosto, é porque gosto mesmo.
Quando eu não gosto, sai da frente!
Idéia roubada descaradamente dessa moça que eu amo loucamente
Melina
5:56:08 PM
11.7.2005
para onde a palavra me leva
Paro. Para onde a palavra me leva?
Descalço os pés e deixo que pise na terra molhada.
Sinto-me um anjo - como Gabriel ou como a mais perfeita criação de Deus,
Mrs Devil?? Não importa - a um anjo não se pergunta o sexo, se ama e, com
sorte, encontra-se as cinzas perfeitas para modelar um rosto como o dela
Melina
4:28:47 PM
11.4.2005
EMERGÊNCIA FELINA!!!
Olá,
Eu sou Amelie, uma siamesa muito charmosa e carinhosa. Gosto de colo e carinho
e estou procurando um amor para toda a vida...
Já vivi experiências muito tristes e não conseguiria suportar outra decepção. Primeiro
entreguei todo o meu amor a uma pessoa que se mudou e me deixou pra trás no apartamento
vazio. Depois, o novo morador resolveu ficar comigo, então senti renascerem as minhas
esperanças... mas ele comprou um pit bull que não gostou de mim.
Ele resolveu então que eu deveria ficar trancada num banheiro, mas não me limpava nem me
dava comida todos os dias...
Fui resgatada por uma tia muito legal que está cuidando de mim com muito amor, mas ela está
de mudança marcada para o final do mês e não poderá me levar junto.
Queria muito sentir o calor de um colo só meu, de um dono que me ame para toda a vida a quem
eu possa entregar todo o meu amor também.
Melina
4:56:49 PM
ah Fal...!
Encomende logo o seu!
Melina
3:40:05 PM
DINHEIRO É UM PEDAÇO DE PAPEL
Melina
11:22:52 AM
11.1.2005
Alegrias, as desmedidas
Dores, as não curtidas
Casos, os inconcebíveis
Conselhos, os inexeqüíveis
Meninas, as veras
Mulheres, insinceras
Orgasmos, os múltiplos
Ódios, os mútuos
Domicílios, os passageiros
Adeuses, os bem ligeiros
Artes, as não rentáveis
Professores, os enterráveis
Prazeres, os transparentes
Projetos, os contingentes
Inimigos, os delicados
Amigos, os estouvados
Cores, o rubro
Meses, outubro
Elemento, o fogo
Divindade, o logos
Vidas, as espontâneas
Mortes, as instantâneas
Brecht - Lista de preferências
Melina
10:43:19 AM
10.28.2005
tristeza
A tristeza veio andando em minha direção.
Grande, forte, olhos esbugalhados, tosse alta e encatarrada.
Balbuciou algo apenas com o movimento dos lábios e um fio de voz fina. Não entendi.
Seu corpo robusto era coberto de farrapos sujos e os cabelos brancos e desalinhados.
Com uma das mãos, unhas sujas e repugnantes, apertou meu ombro, cerrou os lábios
e como num pré grito soprou de leve o meu rosto com o seu hálito quente.
Passou a mão por entre os meus cabelos e num acesso de riso frouxo me abraçou com
seus vários braços dizendo baixo no meu ouvido: não brinque comigo!
Melina
9:39:31 AM
10.27.2005
sem
Pessoas
Coisas
Costas
Braços
Pernas
Dentes
Pelos
Penas
Patas Rabos
Gatos
Vozes
Sons
Tons
Dons
Letras
Cartas
Fartas
Historias
De
Amor
Jogos
Latas
Becos
Fatos
Idas
Voltas
Marcas
De
Dor
Dias
Sóis
Noites
Cruas
Beijos
Com
Duas
Bocas
De batom
Melina
3:21:37 PM
10.25.2005
"Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar..."
Chico Buarque e Edu Lobo em A moça do sonho
Melina
12:12:14 PM
A vida não tá certa nem errada
aguarda apenas nossa decisão
Tudo ou nada - Itamar Assumpção e Alice Ruiz
Melina
9:27:40 AM
10.21.2005
posfácio
Aquela manhã parecia de dezembro, trazia um calor atroz e ela tinha a camisola grudada ao
corpo pelo suor. Despachara as crianças para a escola, o marido para o trabalho e aquela
dor de cabeça havia feito com que voltasse para a cama. A campainha soara pela terceira
vez, o que mais parecia um sonho ruim. Levantar ainda zonza para atender à porta, e lá foi
ela cambaleando, descabelada ainda e quando abriu, lá estava ele com um ar de tristeza
disfarçado por um sorriso amarelo, os olhos suando por debaixo dos óculos de grau, as
mãos levemente trêmulas por um nervoso insuspeitável, e ele dizia que quando somos
jovens fazemos coisas irrelevantes, magoamos quem mais amamos e que o tempo passou
e que a saudade o havia feito lembrar dela com tanta nitidez que fez com que ele chegasse
até ali; queria saber se ela continuava linda e se tinha se tornado uma mulher feliz... pediu
para entrar, tomar um café e ela ainda sem entender direito pediu que ele voltasse um outro
dia. Depois da porta fechada ela se pergunta em voz quase alta, como alguém pode invadir
uma manhã tão cheia de calor e dor de cabeça com um assunto tão antigo e quase que
completamente esquecido.
Melina
4:54:28 PM
prelúdio
...e tirou os sapatos deixando à mostra os pés mais bonitos, pediu massagem e ela os
acariciou como se neles estivesse toda a sua alma...
Melina
2:20:41 PM
10.17.2005
do baú
um beijo aqui, outro ali e pronto: me acertaste entre os seios
Melina
3:15:27 PM
10.11.2005
Primeiro a gente entra, depois a gente vê o que acontece. -
Napoleão Bonaparte
Melina
2:13:06 PM
10.7.2005
dor no corpo in-tei-ro, sabe o que é inteiro?! Pois é,
todas as partes que você pensar dói. Dor de garganta,
moleza, irritação, frio no calor, calor no frio. Saco,
fiquei gripada de novo.
Melina
4:51:01 PM
10.6.2005
A inspiração vem de onde?
Pergunta pra mim alguém
Respondo: talvez de Londres, de avião, barco ou bonde
Vem com meu bem de Belém, vem com você nesse trem.
Das entrelinhas de um livro, da morte de um ser vivo
Das veias de um coração, vem de um gesto preciso
Vem de um amor, vem do do riso, vem por alguma razão
Vem pelo sim, pelo não
Vem pelo mar gaivota, vem pelos bichos da mata
Vem lá do céu, vem do chão, vem da medida exata
Vem dentro da tua carta, vem do Azerbaijão
Vem pela transpiração.
A inspiração vem de onde?
Vem da tristeza alegria, do canto da cotovia
Vem do luar do sertão, vem de uma noite fria
vem, olha só quem diria, vem pelo raio e trovão
o beijo dessa paixão.
A inspiração vem de onde?
Transpiração de Alzira Espíndola e Itamar Assumpção
Melina
4:29:29 PM
10.4.2005
presente
Toda de cor de rosa ela me olhou atentamente e pulou
para o banco de trás com um sorriso discretamente
acanhado. Os olhos de jabuticaba me fitavam com uma
atenção que não se dispensa irrefletidamente. E eu já
sabia quem ela era de nome e fama. Ela nem sabia,
mas já tinha me conquistado bem antes daquele encontro
no carro branco. Muito grande pra ser criança, pequena
demais para ser chamada de adolescente e suas unhas
ruidas eram pintadas intercaladamente de prata e vermelho.
Nos braços muitas fitas do Senhor do Bonfim da Bahia. Mal
nos conhecemos e ela já me contara onde que os pedidos
estavam escondidos em códigos num diário indecifrável.
Foi uma tarde de sol discreto. - Na minha alma restaria
certamente qualquer marca, clara, cor-de-rosa, anotando as
sensações e aquela tarde - Ela riu, ficou emburrada e voltou
dormindo no banco de trás. Desde esse dia ela veio morar aqui
nesse orgão oco, muscular que recebe e bobeia o sangue por
meio de movimentos ritmados, deixando nele um ponto bem
grande, luminoso e cor de rosa.
Melina
3:29:10 PM
9.29.2005
Tenho por princípios nunca fechar portas
mas como mantê-las abertas o tempo todo
se em certos dias o vento quer derrubar tudo?!
A.Calcanhotto [Sudoeste]
Melina
4:20:54 PM
9.28.2005
mosaico
A solidão me avista de longe; asa quebrada, o olhar mais
triste que já vi na vida e olhe que tínhamos acabado de falar
de paixão. Mais cedo ela escreveu no seu pequeno caderno
de anotações sobre asas e felicidade. E a outra mal sabe
usá-las.Chorei quieta enquanto desviava das poças imundas
que se formam No meu caminho de casa quando chove como
tem chovido. E tem feito frio.
A gata cinza ronrona de medo. E ela disse que nunca sabe
exatamente quem eu sou. E eu que nunca entendi muito bem
de solidão e medo, agora tenho tudo amalgamado, sobejado e
asilado sob as minhas asas tortas.Peraltice, leite quente e Wisnik.
Na madrugada a gata cinza ganhou o mundo.
Melina
10:48:27 AM
9.23.2005
há sempre algo de ausente que me atormenta
Camille Claudel
Melina
5:08:40 PM
inauguração
Cama nova, roupas de cama limpinhas, colcha de piquê,
travesseiros macios. Inaugurei a cama sonhando que andava
pela Floresta da Tijuca e encontrava Brás Cubas. Algodões no
nariz e "tufos" enormes nos ouvidos, ele acenava pra mim de
longe e vinha em minha direção eu achava tudo muito engraçado
principalmente porque sabia que estava sonhando.
Melina
4:33:37 PM
9.22.2005
coisa de amor
Ela amanheceu cantando como se tivesse brotado rosas dos
seus lençóis ou nuvens lilases tivessem adentrado o seu quarto
de paredes azuis. Passou o resto do dia sorrindo como se dentro
dou seu peito, pequenos pássaros brancos batessem asas e falava
comigo com tanta delicadeza sobre o amor que preenche cada
centímetro quadrado de sua vida inteira, enquanto passava suavemente
as mãos nos meus cabelos.
Melina
3:52:56 PM
9.21.2005
desejo do momento
Ir à festa de despedida do livro dela.
Melina
5:20:04 PM
9.19.2005
Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito
completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e
eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala,
uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa
coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco
a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado
Para uma avenca partindo - caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado
Melina
12:18:56 PM
9.16.2005
minha valsa brasileira
- Ela, enquanto mexe os talheres e os leva até a boca, é semelhante a uma valsa
Disse isso a C. e ela riu de mim
Ela dança valsa enquanto anda
Existe valsa enquanto ela canta música italiana, com um sorriso
no canto da boca, só para mim
Toca valsa enquanto nos olhamos longamente com um sorriso gostoso no final
Tem valsa na sua voz, tem valsa na maneira que ela dirige
Tem valsa no movimento dos seus cabelos finos e no seu sorriso tímido
Tem valsa no que ela é, no que ela não é e no que eu gostaria que fossemos
Ela É a minha Valsa Brasileira
Melina
11:40:12 AM
9.15.2005
sonho
Sonhei que tinha uma festa em minha casa.
Eu olhava ao redor e não conhecia quase ninguém, só Chico, Vinícius, Tom e Miúcha.
Todo mundo cantando, Chico tocando violão. Eu saía da roda pra ir até a cozinha pegar
uma cerveja e Vinícius me chamava insistentemente dizendo que ia cantar uma música
pra mim. Pedia a Chico o violão, pedia licença a Tom, me olhava por trás daqueles óculos
pretos e cantava: "Só sei que sou louco por ela e pra mim ela é linda demais..."
Acordei.
Melina
3:46:28 PM
9.14.2005
amélia e oscar
Ela abriu os olhos quando o sol ainda estava discreto numa pontinha
mínima no céu e um galo cantava num quintal qualquer.
Ao seu lado, o lugar já vazio. Ele ainda não voltou ou já se foi...
Levantou com sua camisola já gasta. Pegou água no quintal para
escovar os dentes - aprendeu com a avó que dentes devem ser escovados
antes de qualquer outra coisa a ser feita por mais importante que ela pareça
ser -, ferveu água para o café, acordou Jonas, Paulinho, Bárbara e Carolina
com um beijo carinhoso em cada um. Pediu com muito carinho e paciência
que se levantassem rápido para irem à escola. Estavam atrasados. Fez o
café, esquentou o leite. Um pão com manteiga para cada um. Olhou Carolina
e sua costumeira inabilidade em pentear os cabelos, Paulinho com os tênis
calçados com pés trocados. Penteou uma, calçou corretamente o outro.
Olhou o quarteto com tanta ternura e amor enquanto enxugava as mãos na
barra da saia, que seus olhos se encheram de lágrimas. E ela sorriu pra eles
e eles corresponderam imediatamente. Pegou todos pelas mãos, cantarolou
um samba antigo enquanto desciam o morro.
Ponto de ônibus, ônibus, escola, volta pra casa, lava louça, passa roupa,
varre casa, faz as camas, apronta janta, toma banho, perfume doce,
sandália de salto, saia rodada, flor no cabelo, bilhete para Oscar:
"Não posso mais, eu quero é viver na orgia"
Melina
10:41:35 AM
9.12.2005
Nunca cometo o mesmo erro duas vezes,
cometo duas três quatro cinco...
Leminski
Melina
2:12:14 PM
9.8.2005
chove
Ela em casa, debaixo das cobertas vendo filmes preto e branco. Vivendo de
pipoca, cachorro quente e Mc Donalds frios. Coca cola (light, por favor!) e chocolate.
As mesmas meias, poucos banhos, moletom cinza chumbo, sandálias havaianas
enfiadas entre as meias quase sujas, louças por lavar, casa pra varrer, vagas
lembranças, cochiladas breves entre os filmes. Colchão no chão (cama quebrada sem
previsão de conserto), telefone fora da tomada, celular completamente desligado.
Se reconhece a feliz e realizada imagem do desleixo...
Melina
11:57:37 AM
9.6.2005
A vida não é filme, você não entendeu...
Melina
6:53:37 PM
9.2.2005
banheiro feminino
Ela ainda não entendera como as coisas funcionavam e qual a relação absoluta
que existia entre o coração e as sensações irreveláveis que teimava em ter
enquanto prestava atenção nos movimentos da professora de língua portuguesa.
Cada detalhe tinha sua atenção inteira: as mãos sujas de pó de giz branco, os
lábios cor de rosa que diziam palavras doces ainda que cheias de pontos,
interrogações e pronomes de posse, as suas pernas branquinhas debaixo
da saia cor de jeans...
Ela, lá do canto esquerdo no final da sala, sentia o palpitar do coraçãozinho
batendo dentro do seus quase peitos doloridos e um suor que vinha sem calor.
As bochechas vermelhas também a denunciavam. A torcida era sempre para
que nunca mais soasse o sino anunciando o final da aula. Mas ele sempre
tocava e ela sempre chorava e ia sempre correndo escrever com a letra disfarçada
na porta bege do banheiro feminino: "Professora Marta eu te amo"
Melina
5:18:26 PM
minha amiga-irmã
Lembro quando ela anotou o meu nome e telefone num bloquinho
laranja. Laranja é a minha cor preferida e tudo que eu consegui enxergar
naquela noite foram os seus óculos de grau e o tal bloquinho laranja.
Nem sei muito bem quais as nossas primeiras palavras, só sei que
passei a esperar seus e-mails diários cheios de palavras gostosas, de
trechos de músicas que ficavam tocando na minha memória o resto
do dia e eu já gostava dela antes do segundo-primeiro encontro.
Quando fomos almoçar, seus óculos chegaram primeiro e as suas gentilezas
e a atenção chegaram logo em seguida. Ela lembrava que eu não gostava
de cebola e sentiu logo o cheiro do meu perfume no abraço apertado.
Ela é discretamente ciumenta e tem um dos sorrisos mais bonitos que eu conheço.
Ela é meu divã e minha diva, o meu chocolate quente no inverno, meu acervo musical,
Minha sorte, minha meta e minha metade. Nosso abraço é meu abrigo anti-nuclear,
nossas tardes são de sol mesmo que a chuva caia e que o céu esteja cinza chumbo.
Ela é minha amiga, minha irmã.. Estaremos juntas, sempre, onde quer que eu vá. Tá?!
Melina
4:48:00 PM
um pedaço da noite
...e passamos a noite à beira da piscina vendo estrelas (muitas, tantas),
tomando vinho e falando falando falando, nos conhecendo mais um
pouquinho do que já nos conhecíamos pelos cheiros e olhares e o tempo passou
depressa demais, como passam depressa os minutos que estamos usufruindo de
momentos de felicidades, e éramos como duas crianças felizes porque estávamos
juntos até aquela hora e porque iríamos, pela primeira vez, dormir juntos... porque
eu ia descobrir como ela dormia e como ela acordava.
Melina
12:32:57 PM
8.31.2005
elas e eu
O ano era 1999 e eu tinha acabado de aterrizar na cidade maravilhosa.
Recém feliz por ser, de agora em diante, dona do meu nariz.
O sol estava quente, muito - apesar de ser Julho, naquela tarde de sábado.
Frio na sombra, calor fora dela. Peguei um táxi, disse o endereço tentando
disfarçar o sotaque para que o taxista não me passasse um golpe, distraí
na virada da primeira esquina. Gávea. Já simpatizava com o bairro sem
nem conhecer direito. A vontade era apenas a de aprender a fotografar.
O prédio antigo amarelo, com apenas 3 andares, era igualmente simpático.
Subi até o último andar e lá estava eu batendo na porta de madeira pesada,
mal conseguia ouvir o barulho das minhas próprias batidas. Imaginei que por
dentro alguém jamais as ouviria. Segundos depois uma preta bonita, sorriso
largo e dentes brancos, me recebe com tamanha simpatia e com cara de
quem já me esperava desde cedo.
Me pediu que esperasse numa sala gostosa e grande, móveis antigos de
madeira misturados a outros muito modernos e no alto de uma estante
colorida de verde e rosa, uma gata preta e branca me fitava. Fui até ela,
fiquei na ponta dos pés, estiquei o braço, toquei a sua cabeça. Ela logo
desceu dali, veio até o meu colo e ficamos juntas ainda por muitos minutos
até que alguém veio de longe secando os cabelos, rindo e alertando que
fosse cuidadosa com Billie, ela era uma gata selvagem e costumava atacar
estranhos. Continuei o carinho e recebi um beijo em uma das bochechas
de uma moça extremamente bonita, olhos levemente esverdeados, cabelos
e cílios naturalmente ruivos, boca rosada e sobre seu colo estavam pousadas
algumas sardas marrons. Acabara de sair de um banho quente e o seu perfume
se espalhava com suavidade por todo o ambiente. Me chamou de menina com
sua voz rouca e me deu um abraço apertado encostando todo o seu corpo
contra o meu. Eu continuava sentada com a gata selvagem entre as pernas.
Ao se afastar me olhou dentro dos olhos e eu senti os dois lados das maçãs
do meu rosto avermelharem.
A gata continuou imóvel gostando do carinho, eu continuei imóvel
admirando cada detalhe do rosto e dos movimentos dela. Seu nariz
parecia ter sido desenhado no rosto de tão perfeito, sobre ele umas sardas
muito miúdas quase imperceptíveis a olhos menos privilegiados.
Seu sorriso trazia os dentes mais bonitos que já conheci. Sua voz firme
falava sobre as delícias de fotografar e contava histórias de viagens e
lembranças coloridas e em preto e branco. Logo pediu dois cafés que
chegaram trazidos pela preta bonita em bandeja de madeira e xícaras
verde limão. Depois do café passado na hora, me pediu um momento
rápido; desistiu, e do meio do caminho voltou me chamando para que
pudesse acompanhá-la até o quarto. Precisou de um banco pequeno,
apesar de seu um metro e oitenta e cinco de altura, para ter acesso a
parte superior do armário de onde tirara uma caixa grande cheia de
fotos. Ali estaria toda a sua história.
A tarde foi inesquecível e costurada por histórias engraçadas e inteligentes.
Ao som de Chico, rimos alto e por algumas vezes me emocionei com seus
relatos bem contados e cheios de detalhes - Falou sobre a perda dos pais
quando ainda era muito menina, dos anos que passou planejando e desejando
engravidar e só conseguira ser mãe aos 42... antes da tarde acabar, uma
garotinha muito emburrada, sardenta como a mãe e de bochechas rosadas como eu,
apareceu na porta do quarto como num passe de mágica, e me olhou com
estranheza. Mesmo assim veio para o meu colo e eu ouvi a mesma voz
repetir que tivesse cuidado com Ana Mariana, ela era uma gata selvagem e
costumava atacar estranhos, em um tom extremamente irônico - tempos
depois eu percebi que se tratava de um hábito.
Rimos mais uma vez. A garotinha quase ruiva continuou emburrada.
A noite chegou mais rápido que as outras, chegando assim a hora de voltar
para casa.
Ela me levou até lá e antes de se despedir com um beijo de leve em minha
boca, disse que voltaria para me buscar amanhã o mais cedo possível.
Dias como esse se repetiram por muitas semanas. Dentro deles coube
muitas risadas e segredos e novidades. A afinidade foi instantânea e o
amor foi surgindo em doses homeopáticas. Cada dia me apaixonava por
mais um detalhe, por mais uma sarda, um novo movimento das mãos
Todas as confusões foram se ajeitando e a realidade
foi se amoldando às nossas vontades, o que parecia impossível deu
certo. E assim, fui vendo a garotinha emburrada sorrir, os dentes
amolecerem e caírem, seu corpo mudar, o medo do escuro, a mania de
querer virar logo gente grande. Nossas 3 vidas ficarem com tudo misturado,
nossos planos construídos juntos, nossas tardes, nossos medos, um
monte de calcinhas.
Foram anos de intensidade em tudo. Cultivo da vontade de ser para sempre.
Café da manhã, jantar, final de semana, briga, carinho e verdade. Um verdadeiro
sonho em realidade.
Anos bons de serem lembrados. Com elas fui um pouco mãe, um pouco filha,
um pouco mulher, velha e menina. Com elas aprendi a ser criança de novo,
aprendi a escrever a várias mãos, a ler ao mesmo tempo mais de um livro,
a gostar de gatos, a fazer relaxamento, tomar chá com leite, ler jornal debaixo
da árvore, comer Nutella com o dedo, dormir três na mesma cama uma noite
inteira sem acordar com dor nas costas. Com elas aprendi a abrir mão do que
é importante por amor. Aprendi a gostar de Kafka e Dali, e a ficar acordada
a noite inteira com os tratamentos de quimioterapia ou com simples gripe de
criança que nem sequer sabe dizer direito onde dói porque dói tudo. Aprendi
que ninguém é responsável pela felicidade de quem quer que seja a não ser
pela sua própria (depois que nascem os pentelhos, é claro!). Aprendi que
ninguém é filho da puta por se apaixonar por outra pessoa, no meio do
caminho, mesmo vivendo uma relação onde o amor é de verdade.
Aprendi também que um amor que acaba, pode virar uma amizade
da melhor qualidade até que a morte nos separe, como ela costumava
dizer das últimas vezes que conversamos por e-mail.
Lembrei disso tudo após ouvir F. dizer que tínhamos acabado de perder
S.. Fiquei por muitos minutos parada na mesma posição, Pensei nas
dores que Mari vai sentir para o resto de sua vida. Sem lágrimas chorei e
pensei que não vou mais escutar ela me chamar de mãezinha.
Melina
11:15:58 AM
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